Uma ode à gambiarra

No Clima
3 min readJan 20, 2024

por João Raia | VP de Projetos No Clima

Dia desses me deparei com uma pergunta um tanto quanto incômoda quando feita a um publicitário:

“Será que você está realmente inovando, criando coisas diferentes e ousadas? Ou será que caiu no senso comum confortável do discurso da inovação — mais conhecido também como o inferno criativo?”

Quem me colocava a questão era eu mesmo, em meus devaneios cotidianos em busca de respostas criativas. Confesso que, a priori, não soube responder bem à pergunta de forma que me satisfizesse e talvez aí, nascesse o embrião desse texto. “Publicitário, portanto criativo. Criativo, portanto inovador”. Essa lógica parece permear o estereotipado senso comum da nossa profissão e colocar um peso extra à pressão real do trabalho cotidiano. “Vontade não me falta. Eu sempre começo um trabalho com boa vontade”, talvez fosse a primeira resposta que me viesse correndo à mente. Mas será essa vontade suficiente? Como sair do peso entediante da rotina e fazer diferente? E mais, seria isso realmente possível? Como diriam os céticos, o “inferno” está cheio de boas vontades.

A mesmice sempre me apavorou, desde que me entendo como ser potencialmente criativo (e isso se manifestou mais fortemente quando entendi que, “não! criatividade não é um dom divino, ungindo uns poucos escolhidos no mundo. É uma habilidade e como tal, pode ser trabalhada e desenvolvida. É… trabalho dá trabalho). Mas, convenhamos, é muito mais fácil se acostumar a determinadas situações e conjunturas do que realmente fazer alguma coisa a respeito. E acabamos nos convencendo de que, de fato, estamos mudando, inovando e sendo bem fodões. Somos mestres em olhar o trabalho alheio, se apressar em julgar e pensar como fazer melhor. Mas quando se trata do nosso próprio trabalho, a saída mais fácil frequentemente se apresenta como a mais cômoda. Seria isso um vórtex de hipocrisia criativa a que todos estamos fadados?

Aí, me deparei com dois livros que chamaram minha atenção “Pense como um freak: Como pensar de maneira mais inteligente sobre quase tudo”, de Steven Levitt e Stephen Dubner e “Roube como um artista” de Austin Kleon (livros, aliás, que recomendo muitíssimo como um primeiro passo para sair da zona de conforto). E fiquei pensando: e se, efetivamente, pudéssemos nos forçar a pensar de forma inovadora? Inteligente? Diferente? Portanto, resolvi me jogar em um desafio constante e incômodo. Queria responder à pergunta com qual comecei o texto através de ações concretas. Me forçar a conhecer mais, sobre tudo. Entender e reconhecer que não sei tudo — aliás, não sei quase nada e que isso seria força motriz para que, de fato, eu pudesse aprender — apreender tudo possível, sair de uma cabeça formatada para expandir-me para o mundo. Sim, é difícil. Às vezes, quase impossível. Por isso, esse texto. Como um constante lembrete a mim mesmo de que é possível pensar diferente. E acho que isso passa pela gambiarra.

Me explico: gambiarra não é o jeitinho brasileiro. Tampouco tem a ver com feiura, tosquice ou precariedade. É um exemplo brilhante da resolução de problemas de forma criativa e inovadora no dia a dia.

É improvisar para pensar diferente. É rock n roll. É não se ater a regras, limitações e ressignificar coisas. É maravilha. Crianças tendem a ter em si “gambiarrice” inata. De um graveto, espadas surgem. De rejuntes, áreas seguras. A abertura das Olimpíadas no Rio em 2016 fundou-se nisso — e surpreendeu pelo espetáculo.

Gambiarra é se virar, de forma a resolver o problema de forma efetiva. Olhar pro mundo de outra forma (se você é de humanas, quem disse que dados não são pra você?). Se questionar (estou mesmo resolvendo problemas). Já parou pra pensar que, muitas das coisas que surgem, necessitam do apoio de um aparato? Sem aquela tecnologia, sua ideia já era? Será que efetivamente suas soluções são criativas e inovadoras? A gambiarra deveria ser pré-requisito do criativo. Vamos trazer as nossas crianças criativas de volta! Mudemos! Questionemos! Não se contente! Como diria um famoso meme de internet, “busque conhecimento”! Gambiarre-se! E, não importa o que acontecer, assuma: eu não sei. É libertador.

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